Durante muitos anos, o arroz-doce da minha mãe fez as delícias de miúdos e graúdos. Ainda hoje todos guardam essa memória de conforto. Um arroz muito cremoso, com bago macio, docinho, mas não em demasia. No ponto. E era tudo “feito a olho”.

Também eu o fiz assim durante toda a vida, até ter tido a necessidade de fazer pesagens e medições para o poder colocar no meu segundo livro de receitas – A Minha Cozinha II.

A minha mãe sempre dizia que o arroz-doce perfeito era feito com carolino, por ter mais goma.

– “Ouviste filha?” 

– “Sim mãe…”

– “E o açúcar nunca se coze, porque o arroz fica duro. Só juntas no fim depois de retirar do lume, está bem?”

– “Sim mãe…”

E eu na altura a pensar quando é que me safava dali para ir ver televisão.

Outro ensinamento importante que me deixou é que “o arroz-doce deve ser servido à temperatura ambiente”, mesmo que, por força das circunstâncias, tenha de ser guardado no frigorífico. Basta retirá-lo algum tempo antes. Um arroz-doce a uma temperatura muito fria perde no sabor e na textura.

Obrigada por tudo o que me ensinaste, Mãe. Do arroz, da dedicação e trabalho, das coisas boas e más. Da vida.

O que não entendo é como surgiu a moda de juntar pacotes de pudim ao arroz. Sim eu sei… dá cor… mas também fica a saber a pudim!

Quem queira dar cor ao arroz-doce, basta juntar gemas. Nada mais.

Pessoalmente, dispenso as gemas e a cor. Prefiro-o assim branquinho, ao natural, com o sabor suave do limão.

O meu pecadilho final é carregá-lo com canela – adoooooro canela! – a um nível de insanidade que nem eu entendo… mas pronto.

Seja em casamentos, baptizados, Natal, Páscoa, ou em qualquer ocasião, experimentem esta receita e não cortem no leite. Eu sei… parece muito – e é – mas é a dose certa para garantir uma cremosidade extra.

Se duplicarem a receita, dupliquem-na toda. Nomeadamente o leite. 100 gramas de arroz levam um litro de leite. 200 gramas, dois litros, e por aí fora.

O meu recorde é de 10 litros de leite.

Foi em Novembro de 2017, quando aceitei o convite da residência da Cruz Vermelha na Parede, para colaborar num almoço de angariação de fundos.

Fiz este arroz-doce numa cozinha profissional, num tacho gigantesco, comum nas cozinhas profissionais, num fogão industrial com uma chama potente, que até dava gosto.

Um grupo que estava a sair para Fátima ainda passou pela cozinha para me cumprimentar e para saber do ponto do arroz. Ainda ia demorar…

A cozinha era um espaço animado…

E com profissionais de uma simpatia enorme!

No total, fiz um quilo de arroz e 10 litros de leite.

Muita casca de limão e paus de canela.

E um quilo e meio de açúcar!

Foram duas longas horas a mexer o arroz, porque nunca podemos deixá-lo entregue a si próprio. E no final, dezenas de tigelas estavam prontas para receber os comensais.

No caso de fazerem apenas a dose mínima para 4, o tempo é muito menor. Em cerca de meia hora ficam com esta deliciosa sobremesa pronta.